Faz um ano que não escrevo, você não sabe da minha sorte nesse tempo que passou. Nem mais estou acostumada com a tinta da caneta borrando minha mão que rasteja, ou com o teclado barulhento e com minha mente inquieta. Para aquelas que não sabem, sim, prefiro conversar com as mulheres, e não, não escrevo quando estou bem.
Quando se volta a algum lugar depois de muito tempo, mesmo seja dentro de sua própria cabeça, como é meu caso, as coisas parecem iguais, você parece a mesma: “Claro que eu voltaria aqui, já vim outras vezes”. É um sentimento que permeia, paira no ar, na ponta da língua e que é similar ao indescrito momento de realização de que tudo é cíclico, que estamos alheias a qualquer possibilidade de não permanecer assim. Se é similar ao indescrito, tampouco posso eu lutar com minha própria definição daquilo que sinto e tento explicar. Seria como voltar à casa da sua avó, voltar a fazer algo depois de muito tempo, um bordado, jogar peteca, usar a roupa que era de alguém muito querida, que tem aquele cheiro estranho do fim, quem sabe, de nós mesmas. Se não me entendem, não as culpo, queria eu escrever melhor, sentir claramente e fazer menos murmúrios.
Diferente da nostalgia, esse sentimento me acomete agora. Me esqueci que, mesmo se minha casa possui telhado, se sinto cheiro de almoço, e se me ligam depois de quatro dias de silêncio, minha cabeça, ah, minha cabeça ainda me prega peças agonizantes. Esqueci como é estar vulnerável, sentir o melhor de si se perder nas horas da noite, acordar sempre estafante, ser pouco, querer que tudo acabe, que essa dor melancólica, longa, demasiadamente profunda, tenha fim.
Como eu e ela somos velhas amigas, sei que aguento muito pior bagunça, inescrupulosa tristeza que me visita.
Todo mundo sabe que é você é muito parecida com sua irmã, tem o mesmo nariz, os mesmos trejeitos da mão, faz com que as visitas se sintam em casa, gostam do mousse de maracujá da sua mãe, é isso, entram num cômodo, ninguém pergunta, todos presumem precisamente a linhagem. Mas quando sua irmã briga com sua tia preferida, quando ela apoia uma ideia incrivelmente estúpida, ou, se der corda o suficiente para que falando, ela se enforque, percebe que não há nada nela que deseja ser seu a ponto de abdicar de sua própria mente, e então, fácil assim, dois mundos dispares dividem mesmo quarto, quem sabe.
Faço muitas analogias, percebo muito sobre mim enquanto escrevo e aviso que vou dizer algo importante antes de dizer: essa é uma das analogias ruins. Me acompanhe, você e sua irmã, como não posso explicar de nenhuma outra maneira razoável, nem essa é, são como ir e voltar a algo que não faz a muito tempo.
Em um primeiro momento, é como se você pensasse, minto, eu penso que claramente voltei a mim, que estou em casa, que deveria ser assim, como pode demorar tanto tempo para tal infelicidade voltar a me perseguir? Segundos depois me questiono se realmente não mudei o pilar central do meu ser, e estou apenas o revisitando em um momento ruim, e que de fato, aquilo foi superado, quem sabe para uma otimista, eu virei uma? Antecipo que não. Os minutos iniciais se foram, e agora nos meus devaneios, penso nos quatro dias que antecederam eu voltar a escrever, o desânimo, a falta de mim mesma, o enclausuramento, me coloquei tão só por quê? Para ficar com dó de mim mesma?
Não é isso, não conseguiria, não consigo suportar todo o vazio que me aguarda, o desespero que sinto, o amargo no fim do estômago, estou acabada aos vinte anos. Lembro que quando eu era mais nova e lia o que escrevia, imaginava que somente os adolescentes eram tão melodramáticos e logo mais tardar, iria passar, deixar esquecido hábito tão ignorante para a alma. Imaginei que indo atrás dos meus sonhos me daria por satisfeita, que escreveria no máximo, por quatro meses. Veja só o ano que estamos.
Temporona
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